Uchane

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É redondo, ainda que não seja completamente redondo. Tem contornos irregulares e às vezes me parece uma ameba, sem forma definida. Não sei o que é, não sei por que pertence a mim, por que está junto das minhas coisas. Penso que é maleável, tenho vontade de apertar as bordas, remodelá-las com os dedos. Mas é duro, duro, chumbo, metal.

Na parte traseira há um cilindro, como se precisasse ser acoplado a algo. Parte de algo que se perdeu. Ele se encaixa perfeitamente à ponta do meu dedo indicador. Quando faço isso, o dedo parece estar vestindo um chapéu de confeiteiro. Agora noto que também tem formato de coração.

No centro há um vórtice dourado. É um objeto mesmo muito difícil de explicar com palavras, mas estou me esforçando. Poderia ter sido inventado por Jorge Luis Borges em El libro de los objetos imaginarios: manual de mecánica fantástica. No entanto, existe. Sim, ele está na palma da minha mão e é rígido. E é meu.

Apareceu esta semana, numa noite de insônia, quando o encontrei num dos nichos do criado mudo, ao lado da cama onde durmo, junto aos meus objetos mais íntimos: comprimidos para dormir, remédio para hipotireoidismo, depilador elétrico, carregador de celular, óleo calmante com essência de lavanda, creme hidratante para os pés, preservativos, pequeno manual de meditação mindfulness. É meu e é deserto, é ausência de passado, de sentido. Me desculpem, não há rastros. Não serve para nada.

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Estou feliz por não saber nada sobre o objeto. Todo mistério é bonito. O que se conhece é rotina, o que se conhece não é paixão pueril. Posso inventar sua origem, posso dizer que era o puxador da penteadeira da minha avó, posso dizer que era um broche trazido da Sardenha ou que era parte de algum aparelho que pertenceu ao meu pai, porque meu pai sempre gostou de desmontar coisas e descobrir engrenagens, posso dizer que guardei essa peça já sem utilidade para não me esquecer dele.

Por que eu me esqueci do objeto?

Um extraterrestre o colocou ali, eu sei. Ele queria que eu o encontrasse por algum motivo que desconheço. O extraterrestre não deixou rastros, porque não há rastros em Marte, não há rastros em Plutão, ou talvez sobre ele haja alguma poeira cósmica, um resíduo interestelar composto de partículas que não enxergo. Uma história esquecida, bordas indecifráveis. Não há no meu quarto nenhuma pegada de alienígena.

Foi um presente de um homem que passou a noite comigo e foi embora enquanto eu dormia, me deu beijo no rosto e disse: “para você se lembrar de mim”, mas eu continuei sonhando.

É uma bolacha do mar. Vocês já viram uma bolacha do mar? Parece mesmo. Mas o meu objeto é metálico, não possui matéria orgânica, enquanto a bolacha do mar é um equinodermo escavador e, segundo o Wikipedia, esses animais “se aproximam muito dos cordados por possuírem celoma verdadeiro e por serem deuterostômios, ou seja, o orifício embrionário conhecido como blastóporo origina o ânus dos indivíduos”. E eu não sabia que a bolacha do mar possuía ânus. A bolacha do mar se alimenta de larvas de crustáceos, e o meu objeto se alimenta de pó.

Esta noite sonhei que alguém me entregava o objeto dentro de uma concha. A concha estava cheia d’água, e ele estava boiando. Não me lembro quem me entregava a concha, mas era uma mulher. Acordei e fui ao banheiro lavar o rosto. Escutei uma conversa do vizinho ao telefone. Estava ensonada e entendi que dizia: “tá tudo bem com a sua barba?”, mas ele deve ter dito: “tá tudo bem no trabalho?”. Depois aumentou o tom da voz e disse: “uchane” e repetiu mais alto: “uchane” e mais uma vez: “uchane!”. Eu também pensei ter ouvido ele dizer algo como: “é o som do mundo entre aspas”.

Vou passar a chamar o objeto de Uchane. O meu objeto Uchane, que é rodela, que é bolota, botão, puxador, bolacha do mar, que é ameba, que é ouro, prata, que é vórtice e coração.

Notas do isolamento, 25 de julho de 2020

post 5

1. Sei que: já são muitos dias, é inútil seguir contando /os “brasileiros abandonaram a quarentena antes de a Covid-19 arrefecer no país”/ “o brasileiro é por natureza um povo otimista” / “o Brasil é o país que mais passou a ouvir músicas tristes na quarentena”/ estamos anestesiados por excesso de estímulo / é sempre bom não se arrefecer por completo.

2. Sigo com os pequenos acidentes nas mãos: uma bolha no dedão por esfregar o piso com excesso de convicção; pequenos cortes nas pontas dos dedos por morder a pele com excesso de ansiedade; uma queimadura bem na dobra do dedo anelar por pura falta de atenção.

3. Sempre que eu olho no relógio são 17 horas.

4. O tempo na quarentena deveria passar mais devagar, no entanto passa muito mais rápido. O dia acabou, já são 17 horas.

5. Vejo um filme sobre um fantasma voyeur melancólico (“A ghost story”, D. Lowery). O fantasma também está preso em casa, também é só um espectador do tempo.

6. O vizinho agora escuta Yellow do Coldplay todos os dias no mesmo horário (17h). Ele só sabe cantar o refrão.

7. Eu também acho que já perdi o tempo.

8. Jogo água sanitária no vaso sanitário e penso na palavra sanatório.

9. Diabo Verde é o melhor nome de produto.

10. Algum presidente já mandou beber Diabo Verde contra a Covid-19?

11. Coisas odiosas: dobrar o lençol com elástico, limpar a moka, encher o filtro, pendurar meias.

12. Desconfio de tudo: da água transparente que continua a cair do chuveiro / da mancha marrom que surgiu na parede (de onde veio?) / do céu com cores estranhas que nos parecem bonitas / da nuvem de gafanhotos / das horas / do desejo / do futuro.

Notas do isolamento, 7 de junho de 2020

post 4

Quarentena, dia ? (agora com asteriscos no lugar de números).

*Não há mais números. Ontem o governo não quis divulgar o número de mortos.

*Queria falar sobre a tristeza, mas não queria escrever um texto muito triste.

* Na verdade, hoje eu estou sem assunto.

* Além disso, eu não sei mesmo higienizar legumes e frutas, não nasci para sobreviver a uma pandemia.

* Na quarentena parece que eu estou sempre machucando as mãos. Deve ser porque as unhas estão curtas, mas também sinto que as coisas estão mais duras. Ou eu estou pegando tudo de mau jeito.

* As coisas estão de mau jeito, em geral.

* Eu também não deveria estar prestando atenção nas minhas mãos enquanto há gente que não respira.

*“Violência racial é como síndrome respiratória aguda grave, não permite respirar”, disse a Sueli Carneiro.

* Quando o oxigênio foi descoberto, digamos que em 1774, Antoine Lavoisier decidiu chamá-lo provisoriamente de “ar respirável”.

* Eu queria dizer ao Lavoisier que o ar é bem pouco respirável em 2020.

* E que é triste, Lavoisier, se deprimir com o lugar ao qual você pertence.

* Fiquei com preguiça de lavar o saco de sal que chegou do supermercado e deixei o pacote ali sozinho num canto da área de serviço. De quarentena. Um dia nos vemos, irmão.

* Passei um período comendo comida com bem pouco sal para economizar. Meu nível de colesterol está ótimo.

* Uma mariposa insiste em entrar pela janela, fica batendo contra o vidro. Eu estou presa para dentro, ela está presa para fora. Penso em deixá-la entrar, mas tenho medo de que depois não consiga mais sair.

* Desci as escadas para levar o lixo pra rua e me assustei com a sombra de uma vizinha. A vizinha usava uma máscara de bolinhas vermelhas.

* As máscaras com estampas me dão aflição. Vejo um palhaço vestindo uma calça bufante com bolinhas vermelhas, e ele está dançando num cemitério.

*As bolinhas vermelhas da máscara não combinam com os olhos fundos da vizinha.

* Vou acabar a pandemia sem copos. Eles se quebram, não adianta lutar contra isso.

* Quando isso tudo acabar eu vou abrir a janela para todos os bichos entrarem (e eu sair).

* Quando isso tudo acabar com certeza eu vou jogar um copo contra a parede. Vai ser bom.

Notas do isolamento, 17 de maio de 2020

post 3

Quarentena, dia 15.000.

1. Quando aparece o número 40, eu leio quarentena.

2. Preciso parar de escrever com números. Vejo números de mortes nos jornais. Um número é só um algarismo, não serve para quantificar 1 morte sequer, quanto mais 15 mil.

3. Não consigo visualizar o número 15 mil.

4. O número 15 já foi meu preferido. Depois passou a ser 7, em seguida 11. Sempre ímpares. Os pares são monótonos.

5. Recebi a notícia da morte de uma pessoa querida, recebi a notícia da morte de um dos meus escritores preferidos, recebi a notícia da morte de um músico que meu pai escutava.

6. Minha vida nos últimos meses tem girado em torno da espiral doença-morte-morte-doença. É isso que quer dizer ser adulta e não ter mais 15 anos?

7. Já não me surpreendo ou vejo graça nas estranhezas da quarentena. Mas observo.

8. Os vizinhos têm povoado as varandas antes vazias. Fazem polichinelos.

9. Um gato branco está preso entre a janela e a rede de proteção.

10. Minhas compras refletem meu estado de espírito: comprei um moletom pela internet para não precisar vestir calça jeans.

11. Entrei num site chamado Human Online (que nome, meu deus). A ideia é colocar duas pessoas de diferentes lugares do mundo para se olharem em silêncio por um minuto. Encontrei um homem de cerca de 60 ou 70 anos, olhos azuis, sentado num sofá florido. Senti medo, depois vontade de rir, depois de chorar. Às vezes desviávamos o olhar, às vezes nos olhávamos fixamente.

12. Fico com os olhos ardidos no fim do dia. As telas são irritantes, as telas não servem para ver.

13. Leio notícias sobre o governo e fico sem palavras. Uma palavra não serve para dizer sequer 1 coisa, quanto mais tantas.

14. Descubro a existência do 04. Achava que ia só até 03.

15. Li um poema do Bandeira (O tempo, infinito/ O tempo é um milagre). Continuo sem palavras.

16. Não há mais nada a dizer.

17. Me afasto das redes, mas não muito.

18. Eu estou ficando muda.

19. O poema do Bandeira termina assim: Tudo é milagre/ Tudo menos a morte/ – Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

20. Vai passar. Acho que minha avó diria isso se estivesse viva.

21. Eu amo meu rodo mágico.

Notas do isolamento, 19 de abril de 2020

post 2

Quarentena, dia 57,333.

1. Tomei sol na varanda e fiquei com uma marca estranha na pele. O sol da quarentena também queima.

2. Fiz faxina de biquíni e senti músculos que nunca havia sentido. A dor serve para sentir a própria perna. É bom sentir que se tem pernas.

3. Não acredito que tenha condições emocionais para fazer faxina agora que começo sentir frio.

4. Ouvi os pássaros cantando muito alto, ouvi as gotas do chuveiro pingando muito lentas.

5. Tenho um corte no antebraço e outro no calcanhar que não sei como fiz.

6. Aprendi a desenhar uma nave espacial.

7. Comi muitas vezes batata doce. Minha amiga disse que há uma grande variedade de tubérculos e por isso não é preciso comer sempre o mesmo. Comi inhame, tive alergia à casca do inhame.

8. Baixei um aplicativo chamado Pedômetro e passei a caminhar no corredor. 3 mil passos por dia. Caminhei lendo, caminhei bebendo vinho.

9. Li notícias: drone falante começa a ser usado no Rio para espantar aglomerações.

10. Li notícias: além do vulcão Krakatoa, outros três vulcões entraram em erupção na Indonésia.

11. Meu computador está lento. O momento de maior solidão é aquele dos minutos que antecedem a conexão.

12. Sonhei que perdia uma perna, que amputavam minha mão e a substituíam por um mouse.

13. Sonhei que estava atrasada, que perdia o avião, que não conseguia voltar para casa.

14. Pensei que o mundo, mesmo suspenso, pode ser um lugar perigoso. Então me senti protegida em casa, ainda mais agora que não tenho pai.

15. Neste exato momento estou comprando um rodo mágico pela internet.

16. Quero sonhar com um final apocalíptico, quero sonhar com o mundo reconstruído.

Notas do isolamento, 3 de abril de 2020

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1.Quarentena, dia não sei qual. Eu queria escrever um diário diariamente, mas escrevo só às vezes.

2. Depois de tanto tempo trancada em casa, notei que as gavetas da cômoda se abrem sozinhas, não sou eu que esqueço de fechá-las.

3. Bebi vinho sozinha na varanda quase todos os dias, fui comida por pernilongos.

4. Comprei uma rede pela internet.

5. Vesti sempre o mesmo vestido ou não vesti nada.

6. Arrastei os móveis e agora me sento olhando para fora.

7. Fui ao supermercado e vi pedintes usando máscaras e estendendo as mãos de luvas.

8. Matei uma formiga com o dedão.

9. Cozinhei para mim. Queimei a língua e o céu da boca.

10. “Melancolia da quarentena é privilégio de classe”

11. Gritei “Fora Bolsonaro”, me cansei de gritar “Fora, Bolsonaro”.

12. No primeiro “Fora Bolsonaro”, o vizinho tocou a marcha fúnebre, provavelmente com a corneta de plástico do filho.

13. Um bebezinho nasceu em um dos apartamentos. Chora muito, tenho medo que sufoque.

14. Acho que o vizinho de cima está fazendo cooper no corredor. O teto ainda há de cair sobre a minha cabeça.

15. A samambaia seca continua seca.

16. O cabelo e as unhas dos pés crescem mais rápido.

17. As unhas das mãos continuam roídas (sim, eu sei que não devo pôr as mãos na boca).

18. Beijar é um ato transgressor.

19. Sonhei todos os dias com a Itália, pensei na morte e nos amigos.

20. Pensei no futuro, não pensei em nada.

Escrever e vagabundear em São Paulo

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Revista Trip, setembro de 2019

É sábado. Acordo mais cedo do que costumo acordar aos sábados e tomo um banho. Fico alguns minutos olhando para os meus pés, distraída com algum pensamento. Quando me dou conta, estou atrasada, me visto com pressa e saio. O encontro está marcado para às 9:45, na Estação Fradique Coutinho, em Pinheiros. Tento andar o mais rápido possível, como uma banana.

Há algum tempo, frequento cursos sobre literatura e oficinas de escritas em um local chamado Escrevedeira. Neste sábado, a atividade proposta pela escritora e professora Noemi Jaffe foi a oficina “Escrita Vagabunda”: a ideia é deixar a sala de aula e perambular pelas estações de metrô de São Paulo, sem destino, lendo e escrevendo textos sobre a cidade. Surgiu, então, a ideia de acompanhar o grupo a convite da Trip. Texto completo aqui.

Uma voz fina

Blog do IMS, julho de 2018

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Na estreia do Brasil no mundial só havia mulheres na sala do apartamento. O único homem chegou no fim do primeiro tempo, depois do gol. A transmissão recheada de clichês e bobagens de Galvão Bueno na Globo é diversão garantida quando se está de bom humor, porém se optou pela Fox Sports 2. Pela primeira vez, uma equipe inteiramente feminina conduzia uma partida da seleção masculina.

Uns dias antes, Isabelly Morais, uma moça de vinte anos, havia sido a primeira mulher brasileira a narrar um gol da Copa do Mundo, após a Rússia abrir o placar contra a Arábia Saudita. O vídeo viralizou nas redes sociais: “momento histórico”, “inexpressiva”, “agradável e sem afetações”, “se não ficarem falando sobre qual jogador é o mais bonito, já é um avanço”. A Rússia marcou aos 11, aproveitando um cruzamento pelo lado esquerdo. Isabelly não comentou, mas Yuri Gazinsky – o autor do gol – não é bonito nem feio, e tem as orelhas grandes demais. Texto completo aqui.

 

O acervo das coisas prescindíveis

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Mudei-me para este apartamento há mais de dois anos, após uma separação. Estava enfim sozinha, morava sozinha, dormia sozinha, fazia refeições sozinha. Nunca havia sido assim. E era bom e ruim. Alguns objetos vieram da casa antiga, outros foram comprados depois. Demorei um tempo para travar uma relação íntima com a casa atual e os objetos novos, ou com a nova disposição dos objetos antigos. Estaria a mesa da sala perdida naquele novo espaço, se sentiria ela estranha e solitária, como em uma festa em que não conhece ninguém? Texto completo aqui.