2018: não se desesperar

 

Ilustração: André Catoto

Notícias

Há dois ou três anos mais ou menos a vida é assim (em looping):

Checo as notícias, fico chocada, me indigno, checo as notícias, abro o facebook, não trabalho, checo as notícias, me deprimo, falo com uma amiga, melhoro, vou a uma manifestação, leio mais textos sobre política, compro pão na padaria, posto uma foto no instagram, olho pela janela, acompanho brigas de facebook, me deprimo, penso em renovar meu passaporte, vou a outra manifestação, me canso de ir a manifestações, danço em uma festa,  perco as esperanças, penso em sair do facebook, me distraio, leio um livro, esqueço que vivo no Brasil, sorrio para um bebê desconhecido, falo com um amigo, decido tomar um sorvete, melhoro, checo as notícias, fico chocada, me deprimo, checo as notícias.

O tempo vai se movendo estranho, e as coisas acontecendo como se caíssem de um conta-gotas, enquanto corto das unhas, escovo os dentes, enquanto uma folha cai da árvore e o cabelo cresce. Então o fico chocada é aos poucos suprimido da rotina (talvez passe-se diretamente ao me deprimo).

Lugar comum

Não se desespere, digo (hoje há democracia, amanhã não há democracia, depois de amanhã é domingo e segunda ninguém sabe o que será). Então peço um café depois do almoço (e essa democracia, ela um dia existiu de fato?). Me vejo na tela do celular. Meu cabelo já cresceu (ainda bem, porque da última vez cortei demais). Há muita gente, faz calor, olho para o teto. Na mesa ao lado, duas moças que se parecem não param de falar (nos últimos anos tantas palavras foram ditas tantas vezes e foram ficando gastas; democracia é uma delas). Na televisão, vejo a imagem de uma montanha de concreto retorcido no Largo do Paissandu, onde antes havia pessoas.  Vejo também, da janela, um garoto de boné passar ausente pelo muro que diz Marielle presente. Uma mulher percebe a sacola de supermercado furada e agora abaixa-se para pegar a lata de ervilhas que saiu rolando. Vou pagar a conta, preciso caminhar, devia ter pedido cerveja (outras palavras gastas: corrupto, corrupção, golpe, querida, supremo, ladrão, pacto, pato, nacional, temer, fora, panela, excelência).

(Não sei como dizer o que devo dizer sem usar palavras gastas) (O Brasil está se transformando em uma palavra gasta) (O Brasil está se transformando em um clichê do Brasil) (O Brasil está se transformando em uma velha loira com laquê no cabelo, perfume muito doce e camisa da seleção). (A copa do mundo ainda não começou; o hino está tocando ao fundo).

Homens de verde

Quando meus pais nasceram havia um governo democraticamente eleito; depois instalaram-se generais. Meus pais e meus tios participaram do movimento estudantil e foram detidos algumas vezes. Foi uma época horrível com toda certeza. Ainda assim, às vezes invejo a energia e a crença que tinham no projeto pelo qual arriscavam tanto. Hoje não vislumbro muitos projetos possíveis. E as coisas estão mais confusas: os inimigos são seres mais difíceis de identificar, não estão vestidos de verde-militar, quepe e botas de cano alto. São transparentes.

Faço perguntas à minha mãe sobre as vezes em que foi detida e ela acha estranho. Tento, de forma excêntrica, recuperar a história da minha família na história do meu país (em dez minutos de conversa).

Ela me conta da invasão militar na Puc em 1977, durante uma assembleia estudantil, das bombas de gás, da correria, do medo de ser pisoteada, e de depois perder um pé do tamanco na escada. Era um tamanco azul marinho do tipo babucha, do qual gostava muito, mas pensou que seria o tamanco ou ela, então o deixou para trás e acabou sendo presa com um dos pés descalços. Passou a noite com uma quantidade enorme de estudantes num quartel, viu, de passagem, uma sala macabra com instrumentos de tortura e esperou para ser interrogada em uma sala com uma geladeira marrom. No dia seguinte a soltaram. Então voltou à Puc, de chinelos, para procurar o tamanco perdido na escadaria, mas não o encontrou.

Termino de escrever e desconfio que esteja misturando os relatos. Ligo para ela e confirmo que a história da geladeira marrom foi da outra vez em que foi presa, provavelmente em 79, no DOPS, após ser pega pichando um muro (que estranho é imaginar sua mãe pichando muros).

Diálogo surrealista com a minha mãe:

– E você sentiu medo?

– Sempre me lembro daquela geladeira marrom. Até hoje tenho trauma, não posso ver geladeira marrom.

– Mas você viu uma geladeira marrom outra vez na vida?

– Acho que naquela época era mais comum geladeira marrom. Não sei, não me lembro.

– Eu nunca vi uma geladeira marrom.

Homens de bronze

Quando eu tinha seis anos, votou-se pela primeira vez para presidente, após o período militar. Eu e minhas primas entramos em uma espécie de guerra contra os meninos da rua que atiravam panfletos do Collor no quintal da casa da minha tia. Eles sabiam que gostávamos do outro candidato. Tínhamos ganhado cada uma um fantoche do Lula após algum comício. Brincávamos de debate televisivo e fazíamos apresentações que obrigávamos os adultos a assistirem. Eles riam muito. Uma boneca careca era o Enéas (ou talvez isso tenha sido em alguma outra eleição).

O Lula perdeu dessa vez. Meu avô acreditava que se ele ganhasse teria que dar um quarto da sua casa para um pobre (esse mesmo avô mais tarde passou a votar nele ou em quem ele apoiasse até o fim da vida). Também ouvia na rua que era ignorante, analfabeto e havia cortado o próprio dedo para não trabalhar. Viver no Brasil sempre foi ter que observar o ódio que essa pessoa despertou em uma certa parte da população.

De lá pra cá, aconteceu muita coisa que não cabe nesse texto (Eliane Brum já contou tudo aqui). Hoje Lula está preso, acusado de corrupção passiva. Um procurador citou Dostoiévski para justificar o aumento de sua pena, ao firmar que ele é de carne e osso, não de bronze.

Eu estaria satisfeita se acreditasse que combatem a corrupção, e não outra coisa. Se não soubesse que se segue e se seguirá praticando corrupção. Se não soubesse que Lula não é de bronze e por isso está preso, enquanto outros, esses sim, feitos de matéria metálica muito reluzente, estão aí tocando ela mesma, a corrupção. Se suportasse ouvir ou escrever mais uma vez a palavra corrupção. Quero apagar a palavra corrupção e trocá-la por um sinônimo qualquer, talvez peculato, corrompimento, corruptela.

Como não se desesperar (uma lista)

Ficar em silêncio deitada no chão do quarto; abrir a janela e gritar, se for preciso (e se achar que não vai assustar demais os vizinhos); não se esquecer, não se habituar; respirar fundo (pesquisar a técnica da respiração quadrada); mudar de assunto (falar sobre colesterol ou sobre o urso pardo da Sibéria); tomar sorvete; comprar uma raquete para matar mosquitos; fazer piada com o Temer e com o Gilmar Mendes; olhar nos olhos de uma pessoa que diz: não é? e responder não com lentidão (apesar da minusculosidade da palavra não) (apesar da inexistência da palavra minusculosidade) e suportar as pessoas te olhando na padaria (elas acham muito estranho); nunca (lembre-se: nunca mesmo) ler comentários na internet.

Escrever este texto sem pé nem cabeça, um pouco cansado, um pouco gasto.

 

[Crédito da ilustração: André Catoto]

 

 

Pernas cansadas, olhos abertos, boca fechada

Sobre caminhar e ficar em silêncio

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Ilustração contemplativa do André Catoto

As pessoas vivem dizendo para eu pedir um Uber ou ao menos pegar um ônibus. É que em São Paulo, assim como em muitas cidades do Brasil, quase sempre planejadas para o uso do automóvel, anda-se pouco a pé. Muitas vezes mal há espaço para passar entre um poste de luz e um muro, e sempre alguém anuncia que é perigoso. E é de fato perigoso, mas há também uma conspiração paranoica responsável por nos tirar das ruas, o que as torna ainda mais inseguras. Como sou teimosa, escolho ir caminhando ainda assim.

Tenho um amigo um pouco dramático, que também tem o costume de chegar aos lugares sem usar rodas. Uma vez marcamos um encontro e ele me mandou uma mensagem: “Saio de casa em dez minutos. Acho que vou a pé. Se nunca chegar é porque fui assaltado ou morri”. “Se você morrer, deixamos para outro dia”, respondi.

Quando caminho, estou em silêncio e há tempo para olhar e pensar. Recentemente li uma entrevista com um sociólogo francês chamado David Le Breton (traduzida aqui) que defende justamente caminhar e estar em silêncio como formas de resistência diante da desumanização do presente. Talvez minha teimosia tenha a ver com essa forma inconsciente de resistir. “Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior”. Continuo a refletir em tópicos.

1. Flanar. Entre outras coisas, Le Breton comenta sobre a figura do flâneur, na Paris do Século XIX. O flâneur era um tipo de malandro hedonista que podia vagar sem pressa pelas ruas. Walter Benjamin, analisando uma poesia de Baudelaire utilizou esse termo para descrever o arquétipo do homem que tem tempo de explorar a cidade de forma inútil. Ele diz que, à medida em que as cidades modernas surgiram e os indivíduos adquiram um ritmo de vida cada vez mais acelerado, perderam-se as condições para esse olhar observador. Flaubert e Balzac também escreveram sobre o flâneur, e este último descreveu a arte de flanar como “a gastronomia do olho”.

2. Aprendendo a andar em diagonal. São Paulo não é como Paris, uma cidade pronta para ser apreciada pelo caminhante. Em primeiro lugar, é preciso aprender a caminhar em diagonal, pois quase nunca as calçadas são retas, por causa das rampinhas para os carros entrarem nas garagens. Isso é comum no Brasil, mas em outros lugares não há rampinhas, ou essas são muito menos salientes. Uma vez que você desenvolve uma técnica própria e se acostuma a andar inclinada, pendendo para um dos lados, tudo fica mais fácil. O olhar também se habitua a ver o mundo de forma oblíqua. Às vezes, é preciso subir degraus deformados quando há ladeiras e, nos dias de chuva, escapar dos pisos escorregadios. A paisagem da cidade tampouco é das melhores, mas ainda assim a contemplo. Sem isso, não seria possível ler o que está escrito nos muros, ver os barbeiros velhos vestidos com aventais azuis, ao lado dos barbeiros hipsters com bigodes Handlebar, os edifícios chamados “Joinha” ou “Miami Top”, os funcionários da Eletropaulo trocando fiações nas alturas enquanto assobiam.

3. Esquecer panelas no fogo. Gosto também de ficar em silêncio para ter mais tempo para pensar. De algum modo a escrita possibilita esse tempo maior antes da resposta. As letras pretas sobre a folha branca se organizam melhor, com mais calma. Mas às vezes elas também silenciam e me vejo parada olhando-a com muita aflição. Agora além dos ruídos urbanos, também os celulares, mesmo em modo silencioso, já não vibram em silêncio e fazem um ruído escandaloso quando estão sobre uma superfície sólida.  E as conversas por WhatsApp são rápidas, utilitaristas e substituem os encontros. Sinto falta da troca de cartas com amigas na adolescência, que me faziam ignorar as aulas de matemática e esquecer panelas de Miojo Lámen no fogo.

4. Coisas inomináveis. Com essa crise política tenho optado por não dizer nada. Nem sempre foi assim; no ano passado discuti com uma velhinha raivosa no ônibus por causa de algum comentário feito pela mesma. Talvez seja só desânimo, mas hoje acredito que, de algum modo, o silêncio faça os impropérios ecoarem e causarem algum incômodo.  Da entrevista citada acima: “O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento.”

5. Elevadores. As pessoas reclamam tanto da minha falta de palavras que às vezes me sinto obrigada a dizer qualquer coisa para fugir do silêncio insuportável. Há lugares em que o silêncio é desconfortante; existe uma pressão social para movermos as bocas, como se fechadas elas obrigassem os olhos a se abrirem mais, o que nos representaria o risco iminente de olharmos demais ao redor e percebermos mais do que o esperado. Acontece muito em elevadores, lugares odiosos. Se os prédios não fossem tão altos, eu usaria apenas escadas. Em elevadores falamos sobre as condições climáticas para evitar escutar os ruídos da barriga de um vizinho com problemas digestivos. As conversas sobre o tempo são enfadonhas, mas costumam ser melhor que desatar no mesmo vizinho comentários políticos instantâneos entre o sétimo andar e o térreo. Sempre bom evitar, ainda mais nestes tempos.

6. Alguns silêncios sugeridos pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa:

Silêncio amplo

Silêncio gélido

Silêncio de túmulo fechado

Silêncio soturno

Silêncio solene

7. Maçonaria.

“Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras.”

(Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.)

8. Ruídos internos. Muitas vezes quando estou em silêncio, penso em coisas demais. Meus amigos odeiam quando faço isso. Devo confessar então que, apesar do silêncio externo, carrego uma polifonia interna de ruídos tão altos que eventualmente me tiram o sono. Estou tentando meditação, mas nem sempre funciona.

9. Imagine: duas pessoas que se olham e estão caladas. Apenas buscam uma na outra aquilo que não pode ser dito.

Fragmentos inconclusivos sobre a memória

tatu

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Uns meses atrás: Memória e chaves

Sempre perco as chaves, ou esqueço onde as deixei. E muitas vezes fico trancada em casa, para o lado de dentro. Um dia perdi minhas chaves em uma festa ou em um Uber e fiquei trancada para o lado de fora. Sem chaves, fica-se preso de um lado ou do outro. Costumo me imaginar presa dentro de um compartimento, talvez minha própria cabeça, em que não se acessa uma memória, a lembrança que tem a resposta de onde foi colocada a chave – você a tirou da bolsa, abriu a porta, e as colocou em cima da geladeira, porque precisava de um copo d’água; você abriu a porta e jogou a bolsa e as chaves em cima da cama, e elas caíram no chão, debaixo da cômoda; você abriu a mochila na rua para pegar o celular, com o guarda-chuva na mão, e as deixou cair na enxurrada. A porta do quarto que guarda essa memória está trancado e eu não consigo agarrá-la; mas se por ventura encontro as chaves embaixo da cômoda, em cima da geladeira, ou na gaveta das meias é como se, então, eu pudesse abrir a porta do quarto e ter a memória de volta: me lembro da cena que levou à perda das chaves.

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Anos 2000: É culpa do Google

Desde que me deram um celular minha memória prefere concentrar-se em guardar outras coisas que não números, e então só sei três números de telefone de memória: o meu e outros dois que memorizei antes de ter celular. Um desses números é o telefone da casa da minha mãe, e sabê-lo de memória salvou minha vida quando estava sem a chave de casa, às 6 da manhã, com o celular descarregado.

As senhas eu também esqueço, e agora tenho uma caderneta para não perdê-las, como as avós.  Continuo sendo muito boa em lembrar rostos. Deles nunca me esqueço. Mas esqueço os nomes dos donos dos rostos, mais ou menos cinco segundos após eles terem se apresentado.

Talvez seja culpa da internet e do Google que tem todas as respostas a todas as perguntas, já que quando esquecemos do nome de um ator, ou de um filme, recuperamos a informação perdida em 3 segundos, sem esforço algum. Umberto Eco, antes de morrer, escreveu uma carta ao neto com um conselho: aprenda de memória. Decore “La vispa Teresa” de Luigi Sailer, a escalação do Roma e o nome dos criados dos três mosqueteiros + o D’Artagnan. “Porque a internet não pode substituir o conhecimento, nem o computador pode substituir o nosso cérebro”.

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1984: A história do tatu

Quando começo a escrever este texto, fico sabendo da morte de Ecléa Bosi, que escreveu esse livro lindo que é Memória e Sociedade, de onde vem a frase: “A narração da própria vida é o testemunho mais eloquente dos modos que a pessoa tem de lembrar”.

Então passo a mão na minha bochecha esquerda, sinto a pequena cicatriz e me lembro da história do tatu. Não é uma memória verdadeira porque não me lembro. É a história que me contaram sobre mim, ou que eu mesma construo e invento quando olho no espelho e procuro a cicatriz. Invado a memória alheia e, no fundo, sei de tudo.

Nessa história sou um bebê de um ano e durmo no sofá de couro bege da casa da minha avó; dele me lembro muito bem, porque depois foi parar na casa do meu pai, já desbotado, cheio de rasgos que mostravam suas espumas internas. Na frente do sofá está uma mesa de centro e sobre ela um tatu empalhado, um dos objetos decorativos mais insólitos daquela sala, ainda que não o único. Em algum momento me levanto e vou brincar com o tatu: sua casca dura e suas unhas grandes. Depois, imagino, há muito sangue (ou algum sangue) e choro.

Contando agora a história, lembro-me também do jacaré empalhado pendurado na parede do galpão onde meu avô vendia laranjas, perto do Mercado Municipal – aparentemente eles adoravam bichos empalhados. Recordo as caixas de madeira com o nome Codo e o cheiro de fruta podre.

Quando meu avô morreu e a casa ficou vazia, perguntei pelo tatu e o teria levado para o meu apartamento – se não o tivessem descartado por ele ter perdido o rabo –, mesmo à revelia do meu ex-marido que achava aquilo muito bizarro. Faria isso porque pertenço a essa estranheza, porque, assim como a cicatriz, lembrar dessa história é lembrar daquele lugar, daqueles anos e daquelas pessoas.

***

2016 e 2017: Por que não lutamos?

Mudando um pouco de assunto, mas não muito: de tudo isso o que tem acontecido no Brasil, o que mais me incomoda é a nossa incapacidade de revolta. Por que não lutamos? Estamos há anos presos dentro de um país, sem a chave para sair, e não arrombamos a porta. Fazemos memes, rimos um pouco e não sofremos muito.

 “Os países sem memória são anêmicos e conformistas”, disse o documentarista chileno Patrício Guzmán em uma entrevista. Em seu filme Nostalgia da Luz familiares das vítimas do regime de Augusto Pinochet buscam seus restos no deserto do Atacama. Às vezes, com a ajuda dos arqueólogos, naquela extensão sem fim de terra, encontram uma orelha, um pé e pedacinhos de ossos. Destroços inúteis de corpo. Mas eles sabem que é preciso remexer nessas ruínas.

Por aqui, nunca cuidamos das nossas memórias, nossas histórias violentas – massacres, escravidão, golpes, torturas. Trancamos em algum lugar a lembrança da opressão; uns sempre trucidando os outros, em silêncio. Ficam as narrativas sem rupturas, sem finais abruptos, sempre transições lentas, que no fundo mantêm as coisas como estão. Não remexemos nossas tragédias e fomos nos acostumando a elas, perdendo a capacidade de indignação.

Seguimos então com mais um “Fora Temer” – que talvez se transforme em “Fora Maia” – sem força, empacado.

Onde esquecemos nossos pedacinhos de ossos?

***

2009: Wisława

Há algum tempo descobri a escritora polaca Wisława Szymborska, e algumas vezes esqueço seu nome porque há muitas letras w, z e y, então à vezes a chamo de Vlaswa, e se ela tivesse sido minha amiga, a chamaria de Wis.

Ela sabe que há algumas memórias que não queremos por perto. Por isso colo aqui este poema, publicado em 2009, que está na antologia Um amor feliz:

 

Vida difícil com a memória

 

Sou um péssimo público para minha memória.

Ela quer que eu ouça sua voz incessantemente,

mas eu me agito, tusso,

ouço e não ouço,

saio, volto e saio de novo.

 

Ela requer todo o meu tempo e atenção.

Quando durmo, é mais fácil para ela.

De dia já nem tanto, o que a magoa.

 

Me propõe zelosamente velhas cartas, fotos,

revolve fatos importantes e desimportantes,

devolve a vista para paisagens ignoradas,

e povoa-as com meus mortos.

 

Nos seus relatos sou sempre mais jovem.

Isso é bom, mas por que sempre essa história?

Cada espelho me dá outras notícias.

 

Irrita-se quando dou de ombros.

E então se vinga remexendo todos os meus erros,

graves, mas que já não pesam.

Me olha nos olhos, espera minha reação.

Por fim, me consola; podia ter sido pior.

 

Quer agora que eu viva só para ela e com ela.

De preferência num quarto escuro e fechado,

mas nos meus planos ainda figuram o sol presente,

as nuvens atuais, as estradas correntes.

 

Às vezes fico farta de sua companhia.

Proponho nos separarmos. De hoje para sempre.

Então sorri com complacência,

sabe que também para mim seria uma condenação.

 

[ A imagem do tatu acima é do amigo André Catoto]

 

 

 

São Paulo, cidade invisível

2017-03-19 15.12.07
Ilustração: André Catoto

As cidades, quando crescem demais, enlouquecem. Se tornam loucas porque todo aquele arsenal de gente, rodas, motores, concreto, encanamentos e fiações não cabem em seu corpo e se movem de maneira estranha, o que as fazem disformes e desequilibradas; às vezes felizes com a própria sandice, às vezes miseráveis.  Se São Paulo fosse um humano, sofreria de gigantismo: seus membros engrandecidos e desproporcionais, seus órgão internos inchados e apertados, suas articulações doloridas. Sentiria dificuldades para caminhar e teria dores nas costas. Ainda assim, seguiria respirando tranquila, já tão familiarizada com a própria moléstia.

Olho para o mapa da cidade, com sua forma de ameba gelatinosa, e a vejo também como um animal criado por Borges, meio monstro fantástico, sem sentido. A zona oeste e a zona leste seriam os braços ou patas – o braço direito bastante maior que o esquerdo, este muito pequeno, talvez amputado; a zona norte, seria a cabeça, com uma orelha pontuda de cada lado; a zona sul, a imensa calda que se estende até quase o infinito, o litoral sul. Nós, os habitantes, ocuparíamos esse ser como parasitas.

Esta é a cidade onde nasci, onde vivo e da qual fugi algumas vezes, mas sempre quis voltar. Só nos últimos dias já pensei em ir embora de novo para uns três lugares diferentes, depois em ficar, em seguida em ir para um quarto lugar que ainda não tinha aparecido na história, e assim por diante. Lembro de 2004, 2008 ou 2012 e de como não é fácil voltar a São Paulo depois de um tempo fora. Saindo do aeroporto, topa-se, logo de cara, com a visão do apocalipse: a Marginal Tietê. É uma cidade onde se vê degradação urbana, tanta miséria e tanta riqueza, acompanhadas de conservadorismo predominante que não a deixa se desenvolver. Mas é, ao mesmo tempo, um lugar com tanta gente, de tantos encontros, um aglomerado de criatividade e irreverência, capaz de competir com a opressão, aquela que nos quer empurrar a paisagem sem céu.

Aqui há um prefeito com muito gel nos cabelos, que quer manter tudo em ordem e limpo. Ele se veste de gari e pinta os muros de cinza. Há de se estudar, aliás, essa obsessão pela cor cinza. Nesses muros havia spray e arte, um dos encantos que mais impressionavam os visitantes de vários lugares do mundo. O monocromático durará pouco, penso, e em breve estará tudo colorido de novo, porque é difícil calar essa diversidade.

Às vezes, na rua, observo o chão; a cada dez passos uma imagem nova: calçada de concreto pintado de azul; calçada de azulejos beges, com ondas que imitam o calçadão de Ipanema e fazem escorregar quando chove; calçada de pedrinhas brancas; calçada com grandes lajotas de pedra; calçada com desenho preto e branco do Estado de São Paulo. Não há unidade, constância, fio condutor. É como a casa onde os meus avós moravam na Mooca, quando eu era criança: cada cômodo tinha azulejos e pisos com um desenho diferente. Minha avó nunca foi conhecida pelo bom gosto, mas era lá onde todos nos encontrávamos loucos e barulhentos, como sempre fomos.  Alguns tentam forçar a ordem, mas é dessa confusão que a cidade é feita.

2017-03-19 16.39.14 (1)
Ilustração: André Catoto

O escritor português Gonçalo M. Tavares contou em uma oficina que, depois de uma temporada na megalópole-irmã Cidade do México, ficou impressionado com a quantidade de estímulos por metro quadrado: no mesmo local onde se vendem sorvetes, é possível encontrar duas mulheres rezando num altar; as pessoas correm na rua sem motivo; a terra treme, pois há gente tocando tambores constantemente. Dessa experiência nasceu até um livro chamado “Canções Mexicanas”. Vi algo semelhante ao voltar à Rua Augusta numa sexta à noite, recentemente, depois de algum tempo sem passar por ali após as 23h. Em um intervalo de uns dois minutos, passei por um homem quebrando a calçada com uma britadeira, uma moça vendendo doses de tequila, outras duas meninas vendendo pênis de chocolate a 12 Reais, uma limusine rosa com um grupo de adolescentes que – juro – gritavam “Fora Temer”.

Certa vez uma italiana me perguntou como era viver em uma cidade tão grande, se era suportável, uma vez que Roma, para ela, já era uma cidade “invivível”. Não sei se é “vivível”, mas, de alguma forma, aqui se vive. Se ela fosse inventada – e poderia ser –, seria uma das cidades invisíveis descritas por Ítalo Calvino, afinal aqui estão a Rua Lembranças do Futuro, a Praça Chá da Alegria, a Travessa dos Cartões de natal e a maravilhosa Rua Borboletas Psicodélicas. Se estivesse no livro do Calvino, poderia ser Fílide, que em cada esquina oferece uma surpresa – “feliz é aquele que todos os dias tem Fílide ao encontro dos olhos e nunca caba de ver as coisas que ela contém” –, ou Eudóxia, que é ela mesma o verdadeiro mapa do universo: “uma mancha que se estende sem forma, com ruas em ziguezague, casas que na grande poeira desabam umas sobre as outras, incêndios, gritos na escuridão”.

São Paulo é linda pela teimosia das pessoas. E elas resistem. Caminho pelas ruas na cidade onde os carros são reis, mesmo quando quase não há calçadas, mesmo quando se está em Perdizes e é preciso escalar o Monte Everest, a Rua Caiubí. E sempre há algum desconhecido subindo ao meu lado, para que possamos trocar olhares cúmplices e, ofegantes, rir do próprio martírio. Teimosia compartilhada com os ciclistas, aos quais pretendo me juntar, assim que aprender a fazer curvas com a bicicleta e conseguir manter meus joelhos com pele. Da mesma matéria é feito o carnaval de rua, que revive, agora com toda a força, apesar de tudo. Mesmo que o bloco passe embaixo de um viaduto feio do Bixiga, onde antes havia árvores ou até um rio.

Somos um mar de formigas se empurrando no metrô, descendo e subindo ladeiras e dançando “Tieta” no carnaval, na esquina Avenida Ipiranga com a Avenida São João.  “Um mar de foguinhos”, como um texto do Galeano. E cada fogo brilha com luz própria.

2016: Como salvar seus olhos

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Era 31 de agosto de 2016, por volta das 17 horas, eu estava ali de pé em algum ônibus da Viação Sambaíba ou Viação Gato Preto e o tempo estava chuvoso. Não havia lugares vagos, mas ainda era possível ficar de pé sem sentir aquela sensação de morte coletiva por esmagamento. Acabavam de afastar a presidenta eleita através de uma manobra política – mas o motivo foi uma manobra fiscal, disseram – e como se não bastasse, eu tinha voltado a tomar café. Nesse dia como todos os outros em que pessoas se sacudiram às seis horas da manhã e fizeram tudo sempre igual, eu olhava nos olhos delas tentando me acostumar com a taquicardia e a naturalidade resignada daquele fim de tarde. Onde segurar-se, a cada curva mal feita agora já embarcamos nessa nau sem rumo? – para citar o “poeta” ex-vice.

E foi o prólogo. O ano foi assim e, hoje, já em 2017, parece que continua chovendo. Ao me lembrar desse dia, sinto como se a chuva e a umidade estivesse durando até agora. Quantas vezes se pronunciou a palavra “corrupção” em 2016? Quantas vezes se pronunciou as palavras “fora”, seguida de “Dilma” ou “Lula” e, depois – na maioria das vezes não pelas mesmas pessoas –, “Cunha” e “Temer”, acompanhado ou não de um “primeiramente”, que deveria ser usado no início de uma frase, em qualquer situação.

Antes disso escutamos sinfonias de panelas, vimos muitas bandeiras e camisas amarelas e patos de borracha gigantes, também amarelos, acompanhados de outros muitos patos de infláveis, talvez menores, plagiados de um artista holandês. E também a guerra de outros bonecos infláveis – nunca viu-se tantos objetos infláveis – os chamados pixulecos, de diversos personagens políticos, que terminou certamente com ampla vantagem para os Lulas e Dilmas encarcerados. Conhecemos também a lista da Odebrecht e os codinomes “campari”, “caranguejo”, “todo feio”, “lindinho”, “boca mole”, “botafogo” e “viagra”, entre outros. E tudo isso foi feito por homens crescidos; exceto o logo do novo governo, escolhido por Michelzinho.

Estranhezas à parte, terminamos o ano engolindo um projeto que perdeu nas urnas, formado por um grupo de homens velhos, brancos e ricos (muitos deles envolvidos no escândalo da Lava Jato), com uma primeira dama bela e recatada, com a aprovação de uma emenda constitucional que congela por vinte anos os investimentos em saúde e educação e só poderia ter sido pensada no país do fim do mundo. Provavelmente também trabalharemos até os 73, como o Mick Jagger (mas com muito rebolado, segundo a Revista Exame).

Houve também protestos e alguns pareciam ensaiar algo maior. Mas houve também muita polícia e repressão desmedida, como de costume. Mais uma pessoa perdeu um olho; dessa vez uma menina. Em setembro, durante o 60º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, conforme noticiado pela Folha de São Paulo, realizou-se uma palestra com o título “Traumatismo ocular na era dos ‘black blocs’”, onde discutiu-se sobre como salvar olhos atingidos durante manifestações no Brasil.  De acordo com o médico entrevistado, quando um produto químico entra em contato com o olho, não se deve tentar neutralizá-lo com outra substância. Mais algumas dicas: não usar vinagre ou leite, ter calma, evitar esfregar os olhos, não usar lentes de contato; se tiver que fugir, correr com os braços abertos porque o gás tende a grudar na roupa.

Agora já não há tantas palpitações e a apatia das pessoas me assusta mais que as balas de borracha. Olho para todo esse mal-estar do mundo – aflição universal, já que 2016 também foi o ano de tantas tragédias mundiais, que não cabem nesse texto – e os meus olhos, que ainda estão no lugar, tentam entender e, de alguma forma, se salvar. Porque em 2016, cada vez que eu olhava o relógio, meses tinham se passado. E enquanto subia as escadas do meu prédio novo com caixas –2016 também foi um ano de dores e muitas mudanças pessoais – era como se tivessem passado anos de história.

Em 2017 um outro avião caiu. Talvez nos salvemos agora que o sol voltou a aparecer, mas ainda há muita chuva em 2017. E também muitos mosquitos.