Pernas cansadas, olhos abertos, boca fechada

Sobre caminhar e ficar em silêncio

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Ilustração contemplativa do André Catoto

As pessoas vivem dizendo para eu pedir um Uber ou ao menos pegar um ônibus. É que em São Paulo, assim como em muitas cidades do Brasil, quase sempre planejadas para o uso do automóvel, anda-se pouco a pé. Muitas vezes mal há espaço para passar entre um poste de luz e um muro, e sempre alguém anuncia que é perigoso. E é de fato perigoso, mas há também uma conspiração paranoica responsável por nos tirar das ruas, o que as torna ainda mais inseguras. Como sou teimosa, escolho ir caminhando ainda assim.

Tenho um amigo um pouco dramático, que também tem o costume de chegar aos lugares sem usar rodas. Uma vez marcamos um encontro e ele me mandou uma mensagem: “Saio de casa em dez minutos. Acho que vou a pé. Se nunca chegar é porque fui assaltado ou morri”. “Se você morrer, deixamos para outro dia”, respondi.

Quando caminho, estou em silêncio e há tempo para olhar e pensar. Recentemente li uma entrevista com um sociólogo francês chamado David Le Breton (traduzida aqui) que defende justamente caminhar e estar em silêncio como formas de resistência diante da desumanização do presente. Talvez minha teimosia tenha a ver com essa forma inconsciente de resistir. “Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior”. Continuo a refletir em tópicos.

1. Flanar. Entre outras coisas, Le Breton comenta sobre a figura do flâneur, na Paris do Século XIX. O flâneur era um tipo de malandro hedonista que podia vagar sem pressa pelas ruas. Walter Benjamin, analisando uma poesia de Baudelaire utilizou esse termo para descrever o arquétipo do homem que tem tempo de explorar a cidade de forma inútil. Ele diz que, à medida em que as cidades modernas surgiram e os indivíduos adquiram um ritmo de vida cada vez mais acelerado, perderam-se as condições para esse olhar observador. Flaubert e Balzac também escreveram sobre o flâneur, e este último descreveu a arte de flanar como “a gastronomia do olho”.

2. Aprendendo a andar em diagonal. São Paulo não é como Paris, uma cidade pronta para ser apreciada pelo caminhante. Em primeiro lugar, é preciso aprender a caminhar em diagonal, pois quase nunca as calçadas são retas, por causa das rampinhas para os carros entrarem nas garagens. Isso é comum no Brasil, mas em outros lugares não há rampinhas, ou essas são muito menos salientes. Uma vez que você desenvolve uma técnica própria e se acostuma a andar inclinada, pendendo para um dos lados, tudo fica mais fácil. O olhar também se habitua a ver o mundo de forma oblíqua. Às vezes, é preciso subir degraus deformados quando há ladeiras e, nos dias de chuva, escapar dos pisos escorregadios. A paisagem da cidade tampouco é das melhores, mas ainda assim a contemplo. Sem isso, não seria possível ler o que está escrito nos muros, ver os barbeiros velhos vestidos com aventais azuis, ao lado dos barbeiros hipsters com bigodes Handlebar, os edifícios chamados “Joinha” ou “Miami Top”, os funcionários da Eletropaulo trocando fiações nas alturas enquanto assobiam.

3. Esquecer panelas no fogo. Gosto também de ficar em silêncio para ter mais tempo para pensar. De algum modo a escrita possibilita esse tempo maior antes da resposta. As letras pretas sobre a folha branca se organizam melhor, com mais calma. Mas às vezes elas também silenciam e me vejo parada olhando-a com muita aflição. Agora além dos ruídos urbanos, também os celulares, mesmo em modo silencioso, já não vibram em silêncio e fazem um ruído escandaloso quando estão sobre uma superfície sólida.  E as conversas por WhatsApp são rápidas, utilitaristas e substituem os encontros. Sinto falta da troca de cartas com amigas na adolescência, que me faziam ignorar as aulas de matemática e esquecer panelas de Miojo Lámen no fogo.

4. Coisas inomináveis. Com essa crise política tenho optado por não dizer nada. Nem sempre foi assim; no ano passado discuti com uma velhinha raivosa no ônibus por causa de algum comentário feito pela mesma. Talvez seja só desânimo, mas hoje acredito que, de algum modo, o silêncio faça os impropérios ecoarem e causarem algum incômodo.  Da entrevista citada acima: “O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento.”

5. Elevadores. As pessoas reclamam tanto da minha falta de palavras que às vezes me sinto obrigada a dizer qualquer coisa para fugir do silêncio insuportável. Há lugares em que o silêncio é desconfortante; existe uma pressão social para movermos as bocas, como se fechadas elas obrigassem os olhos a se abrirem mais, o que nos representaria o risco iminente de olharmos demais ao redor e percebermos mais do que o esperado. Acontece muito em elevadores, lugares odiosos. Se os prédios não fossem tão altos, eu usaria apenas escadas. Em elevadores falamos sobre as condições climáticas para evitar escutar os ruídos da barriga de um vizinho com problemas digestivos. As conversas sobre o tempo são enfadonhas, mas costumam ser melhor que desatar no mesmo vizinho comentários políticos instantâneos entre o sétimo andar e o térreo. Sempre bom evitar, ainda mais nestes tempos.

6. Alguns silêncios sugeridos pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa:

Silêncio amplo

Silêncio gélido

Silêncio de túmulo fechado

Silêncio soturno

Silêncio solene

7. Maçonaria.

“Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras.”

(Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.)

8. Ruídos internos. Muitas vezes quando estou em silêncio, penso em coisas demais. Meus amigos odeiam quando faço isso. Devo confessar então que, apesar do silêncio externo, carrego uma polifonia interna de ruídos tão altos que eventualmente me tiram o sono. Estou tentando meditação, mas nem sempre funciona.

9. Imagine: duas pessoas que se olham e estão caladas. Apenas buscam uma na outra aquilo que não pode ser dito.

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3 comentários sobre “Pernas cansadas, olhos abertos, boca fechada

  1. Sílvio Diogo 31 de outubro de 2017 / 07:42

    Olá, Julia, bom dia! Gostei muito de ler o seu escrito. Também faço parte dessa maçonaria que admira ‘Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres’. Obrigado pela referência à entrevista do David Le Breton. E obrigado por partilhar essa informação lá no blog ‘Desenhares’. Seguimos em contato. Abraços! Sílvio

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    • Julia Codo 31 de outubro de 2017 / 13:21

      Olá, Silvio, que bom que gostou. Obrigada por compartilhar a entrevista. Gostei de conhecer o “Desenhares” e esse teu outro blog.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Maria Lucia da Silveira 31 de outubro de 2017 / 15:42

    quando o prosaico é profundo…

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